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Bets, a promessa de ganhar rápido coloca a vida em risco

As bets entraram na vida das famílias brasileiras com aparência de entretenimento. Estão nos jogos de futebol, nos anúncios, nas redes sociais, nos influenciadores, nos grupos de conversa e, muitas vezes, no celular de adolescentes e adultos como se fossem apenas uma brincadeira moderna.


Mas é preciso pensar com clareza, porque as bets não vendem apenas apostas. Elas vendem a promessa de ganhar rápido, a sensação de controle, a emoção da vitória sem esforço e a ilusão de que qualquer pessoa pode transformar pouco dinheiro em muito dinheiro com alguns cliques.


Como educadora de comportamentos financeiros, sinto-me aflita e convocada a fazer este alerta. O problema é que, por trás dessa experiência simples e “divertida”, existe uma engrenagem sofisticada. As plataformas são desenhadas para prender a atenção, estimular a repetição, reduzir a percepção de risco e fazer com que a pessoa continue apostando, mesmo quando já perdeu mais do que podia.





Por isso, falar sobre bets não é falar apenas sobre dinheiro. É falar sobre saúde, comportamento, família, futuro, qualidade de vida e cidadania. Segundo informações do Banco Central, em 2025 os brasileiros estão destinando até R$ 30 bilhões por mês às bets; a CNC - Confederação Nacional do Comércio - também aponta que, de janeiro de 2023 a março de 2026, o avanço das bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista e pode ter levado 270 mil famílias à inadimplência severa. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-04/apostadores-destinam-ate-r-30-bi-por-mes-bets-informa-bc?


O risco das bets não está apenas em perder dinheiro. Está em perder o limite. Perder o sono. Perder a confiança da família. Perder tempo. Perder saúde. Perder a autoestima. Perder a capacidade de tomar decisões com clareza e destruir sonhos.



As bets são negócios extremamente lucrativos para quem as promove. Não para você!



As bets são negócios altamente lucrativos. E, como todo negócio, dependem de permanência, frequência e repetição. Elas querem que você entre. Depois, que volte. Depois, que aposte mais. Depois, que não pare quando perde. Depois, que acredite que está quase ganhando. Depois, que deposite novamente.


Para isso, usam estratégias que combinam design, comunicação, ciência comportamental, gamificação e tecnologia. Vou listar algumas delas, de forma simplificada, para que fique mais compreensível.


Uma das mais poderosas é a recompensa variável. A pessoa nunca sabe quando vai ganhar. Essa incerteza mantém o cérebro em estado de expectativa e faz surgir o pensamento: “só mais uma vez”.


Outra estratégia é a quase vitória. Quando a pessoa perde por pouco, não sente apenas frustração. Sente proximidade. O cérebro interpreta como sinal de que a próxima tentativa pode dar certo.


Há também a velocidade. Apostas rápidas reduzem o tempo de reflexão. Quanto menor o intervalo entre apostar, perder ou ganhar e apostar novamente, maior a chance de agir por impulso.


Os bônus e as promoções também têm papel importante. “Ganhe crédito para começar” parece benefício, mas funciona como porta de entrada. A pessoa sente que está aproveitando uma oportunidade, quando, na verdade, está sendo conduzida para dentro do sistema.


Outro recurso é a linguagem de habilidade. Muitas plataformas fazem parecer que apostar depende principalmente de conhecimento esportivo. A pessoa pensa: “eu entendo de futebol, então sei apostar”. Mas entender de esporte não elimina o risco nem muda o fato de que a plataforma foi estruturada para lucrar.


E há ainda a perigosa normalização social. Quando atletas, influenciadores, comentaristas e amigos falam de apostas com naturalidade, apostar começa a parecer parte do jogo. Isso é especialmente perigoso para a maior parte dos humanos, que têm dificuldade de autocontrole e tendem a privilegiar sempre o momento presente, isto é, têm menor perspectiva de futuro.



Como fortalecer as pessoas, já que as bets estão liberadas?



O maior perigo das bets não é apenas fazer alguém perder dinheiro. É treinar comportamentos financeiros prejudiciais.


A pessoa deixa de gerir o dinheiro ao longo do tempo e passa a buscar resultado imediato.


Deixa de guardar para segurança e passa a arriscar o que poderia proteger a família.


Confunde ganhar dinheiro com apostar.


Transforma o gastar em impulso.


Tenta resolver frustração com risco.


Tenta aliviar ansiedade com emoção.


Tenta recuperar perda gastando mais dinheiro.


E, aos poucos, perde clareza para tomar boas decisões.


Falar sobre bets não deve ser apenas uma conversa de medo ou proibição. Com nossa experiência, desde 2008, ajudando a melhorar comportamentos financeiros de crianças e adultos, acredito que precisamos desenvolver repertório para compreender como essas plataformas funcionam e quais as consequências de se envolver com elas.


Esse é o ponto fundamental: educar os comportamentos financeiros é uma proteção contra sistemas que aprenderam a manipular desejo, medo, pressa e esperança.

O objetivo é formar pensamento crítico, desenvolver autocontrole, perspectiva de futuro e praticar comportamentos financeiros sustentáveis. Estas são algumas perguntas que podem iniciar conversas produtivas.


Por que uma empresa ofereceria bônus para alguém apostar? O que ela ganha?


Por que celebridades e atletas promovem as bets? O que essas pessoas estão ganhando com isso?


Se tanta gente ganha, de onde vem tanto lucro das plataformas?


Por que os anúncios aparecem com tanta frequência?


O que o dinheiro da família precisa garantir?


O dinheiro gasto em apostas está deixando de ser usado no comércio. Quem perde com isso?


Qual é a diferença entre diversão e dependência?


Qual é a diferença entre investir e apostar?


Essas conversas ajudam a compreender que o dinheiro é um recurso que precisa ser gerido ao longo do tempo. Ele será sempre necessário e, ao gastá-lo em algo, não poderá mais ser usado em outro momento nem para outro objetivo. O dinheiro é finito, por isso não deve ser desperdiçado. Ele é uma ferramenta de cuidado, dignidade e liberdade, e precisa ser usado com responsabilidade.


Outro ponto essencial é observar sinais de risco: segredo excessivo com o celular, pedidos frequentes de dinheiro, irritação, isolamento, mentiras, dívidas inesperadas, perda de interesse por outras atividades e tentativa de recuperar perdas.


Quando o problema já está instalado, a família não deve tratar como simples falta de caráter ou irresponsabilidade. É preciso acolher, estabelecer limites e buscar ajuda profissional quando necessário.

As bets nos mostram uma verdade urgente: em um mundo cheio de estímulos, controle de dados, inteligência artificial, não basta ter informação. É preciso desenvolver comportamento. Porque quem não aprende a agir com sustentabilidade corre o risco de ser manipulado pelos interesses de outras pessoas. Até a próxima!



Carolina Ligocki

Fundadora e autora da Oficina das Finanças

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