Neste Dia das Crianças, dê um presente que não cabe em uma caixa
Ontem comecei a assistir ao filme Toy Story 5 e, como mãe e educadora financeira, algumas cenas me tocaram profundamente.
Desta vez, os brinquedos enfrentam uma concorrente diferente, um tablet que chega à vida da menina prometendo diversão, informação e também conexão com outras crianças.
Não quero dar spoilers. Mas quero compartilhar uma pergunta que me fiz: quando uma tela ocupa o tempo de uma criança, o que deixa de ocupar esse lugar?
Talvez uma brincadeira inventada do nada. Uma conversa no carro. Um jogo em família.Um pouco de tédio, que obriga o cérebro a criar alguma coisa. Uma discussão entre irmãos e a oportunidade de aprender a resolvê-la. Uma receita feita junto com alguém. Um passeio.Uma história. Ou simplesmente um olho no olho.
A tecnologia não precisa ser a vilã dessa história. Ela nos ajuda a aprender, trabalhar, encontrar pessoas, resolver problemas e até criar momentos deliciosos em família.
A questão fundamental é: quem está fazendo as escolhas? Essa pergunta tem tudo a ver com Educação Financeira Comportamental.

O que dinheiro e tempo de tela têm em comum?
Na Oficina das Finanças, nós usamos a Engenhoca® para mostrar às crianças que o dinheiro é como a água em um reservatório. Ele entra e sai, pode ser direcionado, desperdiçado e pode ser guardado. E ensina algo fundamental: o dinheiro tem fim.
O tempo também é um recurso que funciona de maneira muito parecida. A cada dia que vivemos, o tempo se vai.
Imagine que cada criança receba, ao acordar, um reservatório com as horas daquele dia. Não existe aplicativo capaz de colocar de volta as duas horas que já passaram. Assim como o dinheiro gasto em uma coisa não pode ser usado em outra, o tempo usado em uma atividade deixa de estar disponível para outra.
Isso não significa que 30 minutos jogando no tablet sejam necessariamente “desperdício”, assim como gastar dinheiro com um sorvete não é necessariamente desperdiçar dinheiro.
A pergunta mais interessante é: essa escolha está me aproximando dos meus objetivos?
Ser capaz de pensar sobre isso e fazer melhores escolhas é uma habilidade para a vida.
Uma criança que aprende a interromper algo muito prazeroso porque chegou o momento combinado está exercitando autocontrole.
Quando consegue esperar para usar o aparelho, pratica adiamento de recompensa.
Quando escolhe entre mais um jogo e brincar com um amigo, experimenta custo de oportunidade.
Quando administra o próprio tempo, desenvolve capacidade de gestão.
E essas mesmas habilidades serão necessárias para uma vida financeira saudável, próspera e sustentável. Elas são úteis para abrir mão de consumos impulsivos, guardar dinheiro para objetivos, fazer o dinheiro trabalhar para gerar renda adicional, cumprir um planejamento, escolher e agir de acordo com os próprios valores e prioridades e resistir aos inúmeros estímulos de consumo que disputarão a atenção.
Por isso, controlar o tempo de tela pode ser também uma experiência com aprendizados valiosos de Educação Financeira Comportamental.
Talvez o melhor presente seja convivência
Com a proximidade do Dia das Crianças, somos bombardeados por perguntas sobre o que comprar.
Qual brinquedo?
Qual videogame?
Qual celular?
Qual presente está na moda?
Mas poderíamos acrescentar: quanto tempo vamos compartilhar?
Experimente fazer um pequeno desafio em família.
Escolham um período do Dia das Crianças para todos, inclusive os adultos, deixarem os aparelhos de lado. Não como castigo ou uma guerra contra a tecnologia.
Será um período de Tempo Presente.
Cada pessoa escreve em um papel algo que gostaria de fazer em família: cozinhar, andar de bicicleta, jogar bola, montar um quebra-cabeça, visitar os avós, fazer um piquenique, brincar com um jogo, plantar alguma coisa, contar histórias da infância dos pais...
Sorteiem algumas ideias. Pode até existir um “orçamento de tempo”: por exemplo, temos três horas; como queremos gastá-las?
E aqui acontece algo maravilhoso: a criança começa a perceber que escolher é também abrir mão. Pois se ficarem uma hora fazendo bolo, terão uma hora a menos para andar de bicicleta. Então, o que é prioridade para nós hoje?
Parece uma brincadeira, mas estarão aprendendo gestão de recursos.
E existe ainda um aprendizado importante
No nosso Método dos 6Gs, além de Gerar, Ganhar, Gastar, Guardar e Gerir, incluímos a Gratidão, que é a capacidade de perceber, reconhecer e valorizar o que já temos e o que já somos.
Talvez este seja um dos maiores contrapontos à lógica do “mais”, tão presente nas finanças, no dia a dia e em tantas áreas da nossa vida.
Mais um vídeo. Mais uma fase do jogo. Mais uma compra. Mais um brinquedo. Mais cinco minutos.
Quando uma família consegue parar e perceber que pode se divertir com aquilo que já possui, inclusive com a presença uns dos outros, está praticando uma habilidade financeira poderosa: reconhecer o suficiente.
E aqui está, para mim, uma das provocações mais relevantes que o filme Toy Story 5 traz: em um mundo cheio de recursos capazes de capturar nossa atenção, precisamos aprender a proteger aquilo que nenhuma tecnologia consegue fabricar por nós: vínculos verdadeiros, presença, imaginação, autonomia e memórias compartilhadas.
Talvez nossos filhos não se lembrem de quantas horas passaram diante de uma tela nesta infância. Mas provavelmente se lembrarão daquele campeonato de jogo de tabuleiro em que o pai perdeu. Do bolo que desandou. Da cabana feita com lençóis. Da avó contando histórias. Do passeio em que começou a chover. Da noite em que todo mundo ficou conversando muito mais do que tinha planejado.
Neste Dia das Crianças, meu convite é: além de perguntar “o que vamos dar?”, experimente perguntar “que tempo vamos compartilhar?”
Porque dinheiro tem fim. E o tempo e a infância também.
Saber escolher e usar nossos recursos mais preciosos talvez seja uma das maiores lições que podemos ensinar aos filhos.
Até a próxima!
Carolina Simões Lopes Ligocki
Autora e Fundadora da Oficina das Finanças




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