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O preço de não enxergar o dinheiro

Você já observou que ficou mais fácil e mais gostoso gastar? Quando o dinheiro some das mãos, a dor do momento do pagamento e aquela sensação de ver o dinheiro indo embora praticamente acaba. 


Durante muito tempo, as crianças iniciavam os aprendizados sobre dinheiro intuitivamente, com experiências concretas. Cresci vendo meus pais retirarem cédulas da carteira, receberem moedas de troco, separarem valores em envelopes ou guardarem algumas cédulas para uma compra futura. Eu ganhava esporadicamente algumas cédulas, tinha carteira para guardá-las, me lembro de perdê-las em alguns momentos e da alegria de reencontrá-las quando colocava a mão no bolso de uma bermuda que havia ficado meses sem uso.





Hoje, grande parte dessas movimentações acontece sem que as pessoas consigam enxergar o dinheiro. O salário entra na conta, as compras são pagas por aproximação, as transferências acontecem pelo celular e as assinaturas são cobradas automaticamente. Para uma criança que observa apenas a parte visível, pode parecer que basta encostar o cartão, digitar uma senha ou apontar a câmera para que as coisas sejam compradas. O dinheiro físico ainda não desapareceu, mas em muitos locais já deixou de fazer parte do dia a dia. Segundo dados divulgados pelo Banco Central, o Pix foi responsável por 54,7% das transações de pagamento realizadas no segundo semestre de 2025, totalizando 42,9 bilhões de operações. 


A digitalização trouxe rapidez, praticidade e inclusão. O problema não está na tecnologia. O desafio é comportamental, quando o dinheiro deixa de ser visto, tocado e entregue, algumas informações e sensações importantes para a tomada de decisão também podem ficar menos perceptíveis.


Para as crianças, é ainda mais difícil compreender de onde o dinheiro veio, quanto ainda resta e quais escolhas deixaram de ser possíveis depois de cada pagamento.


O dinheiro digital parece menos real?

Veja que curioso: uma análise dos resultados de 71 estudos trouxeram evidências do chamado efeito cashless: em média, as pessoas tendem a gastar mais quando utilizam meios de pagamento sem dinheiro físico. O pagamento fica mais fácil. A consequência financeira, entretanto, continua existindo.


No cartão de crédito, existe ainda uma separação entre o momento de consumir e o momento de pagar. A compra produz uma satisfação imediata, enquanto a cobrança acaba aparecendo dias ou semanas depois.


Já aconteceu com você de ser surpreendido por um valor da fatura mais alto do que o previsto em cálculos mentais?


Isso é bastante comum e talvez seja essa uma das razões pelas quais algumas pessoas sentem pouca preocupação ao fazer pequenas compras ao longo do mês, mas experimentam ansiedade quando a fatura finalmente apresenta a soma de todas elas.


Não é apenas uma dificuldade matemática. É uma dificuldade de percepção. Quando os pagamentos são rápidos, parcelados ou distribuídos por diferentes aplicativos e cartões, é comum perdermos a visão do conjunto. Por isso, é tão importante desenvolver o hábito de anotar gastos. 


O que não perder de vista e ensinar aos filhos?

Na nossa jornada para construir a sustentabilidade financeira e conquistar uma vida mais leve e livre sem a pressão constante de ter que nos preocupar com o dinheiro, o Léo, meu marido, e eu precisamos reforçar e lembrar constantemente de pelo menos desses 6 pontos que vou compartilhar. 


  1. O dinheiro do salário é resultado de muito tempo de vida dedicado ao estudo, ao desenvolvimento de habilidades, ao esforço e à dedicação. Então, não dá para desperdiçá-lo;

  2. Cada pagamento reduz o valor disponível e o dinheiro acaba, independentemente da quantidade. Haja vista os inúmeros exemplos de falências de esportistas, ganhadores de loterias, músicos e artistas;

  3. Sempre que usamos dinheiro em algo, estamos abrindo mão de outra possibilidade, por isso é necessário escolher bem em que e quando gastar;

  4. Guardar também é uma forma de usar o dinheiro, pois protege necessidades e projetos futuros. E guardar uma parte antes de sair pagando as contas e gastando é um hábito libertador!

  5. Fazer o dinheiro também trabalhar para nós é fundamental. Aprendemos a ter e a cuidar de nossas “árvores de dinheiro", que nos permitem ter liberdade para escolher o que fazemos com o nosso tempo de vida.   

  6. Lembrar diariamente de todas as coisas boas que temos e somos é fundamental para descobrir o que é o suficiente e parar com a busca constante por mais.


É por isso que temos a frase que virou nosso mantra: “Comprar isso agora me afasta ou me aproxima dos meus objetivos?”. E, para tomar nossas decisões, pensamos sempre no fluxo de dinheiro, e não apenas na quantidade.


Espero que, com esses 6 lembretes no seu dia a dia, fique mais simples agir com responsabilidade, educar financeiramente os filhos e construir a liberdade da sua família, sem ter que agir repetindo padrões que podem estar incomodando e atrapalhando a concretização de sonhos. Minha intenção é ajudar você nas decisões financeiras, tornando visível o que a tecnologia tornou invisível. Até a próxima!




Carolina Ligocki

Fundadora e Autora da Oficina das Finanças



Pesquisa do Banco Central de abril de 2026 https://www.bcb.gov.br/detalhenoticia/21079/nota

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