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Seu dinheiro está a um clique de distância: como proteger a família dos golpes financeiros

3 de set.
4 min de leitura

Outro dia, aconteceu novamente comigo. Meu pai me ligou, era exatamente o dia do aniversário de 81 anos dele, e me perguntou: “Carolzinha, você mudou o número do seu celular?” Eu não tinha mudado de número e era, novamente, uma tentativa de golpe. Era alguém que pegou minha foto, meu nome, meus contatos do WhatsApp e começou a conversar para pedir dinheiro. Isso já aconteceu com você?


Imagine receber uma mensagem de seu filho dizendo que trocou de número e precisa fazer um pagamento urgente. Ou uma ligação de alguém que sabe seu nome, CPF, endereço e até informações de sua família. Pode ser também uma mensagem informando uma dívida, um problema com a conta bancária ou uma oportunidade imperdível que precisa ser aproveitada naquele instante.


Qual seria a sua reação?


Confesso que, quanto mais estudo comportamento financeiro, mais percebo que precisamos aprender a fazer uma coisa aparentemente muito simples e, ao mesmo tempo, muito difícil: PARAR para pensar antes de agir.


Os golpes financeiros estão cada vez mais sofisticados. Não chegam necessariamente com erros grosseiros de português ou histórias mirabolantes. E, agora, com a ajuda da IA, ficou mais fácil usar informações verdadeiras, imagens de instituições conhecidas, nomes, voz, imagem de familiares, perfis falsos muito bem construídos e mensagens que parecem absolutamente reais.


É assustador, mas acredito que podemos olhar para esse cenário por outro ângulo: ele é mais uma evidência da urgência de educarmos comportamentos financeiros dentro de casa.


Porque não basta saber fazer Pix, usar aplicativos bancários, criar senhas ou conhecer investimentos. Precisamos aprender a decidir. Quando falamos em golpes financeiros, é fundamental observarmos os “gatilhos comportamentais” que geralmente são usados.


Medo: “Seu CPF será bloqueado.”


Urgência: “Você precisa pagar agora.”


Afeto: “Pai, meu celular quebrou, estou usando outro número e preciso muito da sua ajuda.”


Ganância: “Você ganhou um prêmio.”


Autoridade: “Estamos falando da central de segurança do seu banco.”


Solidariedade: “Precisamos dessa transferência para uma emergência.”


Percebe? Antes de atacar o dinheiro, muitos golpistas atacam nossa capacidade de decidir com calma. Eles tentam bloquear nosso raciocínio e usar a emoção para nos fazer AGIR AGORA.


Isso é Educação Financeira Comportamental na prática. Ao longo desses anos trabalhando com finanças, aprendi que as pessoas normalmente sabem muito mais do que conseguem colocar em prática. Sabem que precisam comparar preços, gastar menos do que geram, guardar dinheiro, colocar o dinheiro para trabalhar, planejar o futuro… mas decisões financeiras não acontecem apenas no campo racional.


Somos influenciados por medo, ansiedade, desejo, pressão social, sensação de urgência e confiança. Os estudiosos das ciências comportamentais, as equipes de comunicação e marketing e, infelizmente, os criminosos sabem disso.


Por isso, preparar a família contra golpes não é apenas instalar recursos de segurança no celular. É criar comportamentos de segurança, desenvolver o hábito de parar por alguns minutos antes de tomar uma decisão.


O dinheiro que é usado no dia a dia geralmente representa horas de trabalho, conhecimento acumulado, deslocamentos, tempo longe das pessoas queridas, projetos realizados, riscos assumidos e escolhas feitas. Leva tempo e esforço para ser conquistado; ele não é apenas um número.


Quando alguém perde R$ 500, R$ 5 mil ou R$ 50 mil em um golpe, ou desperdiça esse dinheiro comprando por impulso, pagando juros desnecessários, jogando comida no lixo, perde um recurso que levou TEMPO DE VIDA para ser gerado.


Estamos suscetíveis a errar e podemos tomar decisões ruins em momentos de cansaço, distração, ansiedade ou excesso de confiança. Não ficamos nos martirizando; gostamos de avaliar o passado, projetar o futuro e desenhar possíveis cenários para ampliar repertórios e possibilidades de escolha.


Crie regras para se proteger e proteger seus familiares e melhorar a qualidade das decisões. Quanto maior a urgência apresentada por alguém para movimentar dinheiro, maior deve ser a PAUSA. Perguntem-se: "Comprar ou fazer isso agora me afasta ou me aproxima dos meus objetivos?” Recebeu uma mensagem dizendo que precisa enviar uma senha, clicar em um link ou fazer um Pix? Pare. Ligue para o número da pessoa ou para o número oficial da instituição, fale com alguém próximo para pedir ajuda.


Quanto mais alguém disser “tem que ser agora”, mais eu recomendo: não faça agora. Talvez você perca uma promoção, um investimento, uma viagem. Mas uma oportunidade financeira saudável dificilmente deveria depender de você abrir mão de conferir informações básicas.


E aqui, uma sugestão: já que crianças, jovens, adultos e idosos vivem em ambientes digitais, recebem mensagens, acessam jogos, acompanham influenciadores, fazem compras on-line, aproveite para conversar em família sobre essas situações.


Você pode perguntar:


“Se recebesse uma mensagem minha pedindo dinheiro de outro número, o que faria?”


“Se alguém dissesse que você ganhou um prêmio, mas precisasse pagar uma taxa para recebê-lo, desconfiaria?”


“Se aparecesse um tênis que custa R$ 800 sendo vendido por R$ 99, o que você investigaria antes de comprar?”


“Se seu melhor amigo mandasse uma mensagem urgente pedindo dinheiro, como confirmaria se era realmente ele?”


Faça perguntas. Ouça. Deixe que eles proponham soluções. Uma estratégia poderosa da Educação Financeira Comportamental é desenvolver capacidade de decisão, não apenas entregar respostas prontas e orientações.


Dependendo da realidade da sua família, estabeleça um valor a partir do qual outra pessoa será consultada antes de uma movimentação inesperada. Isso ajuda a criar uma barreira adicional contra decisões emocionais.


Nosso papel, como adultos, educadores e famílias, é desenvolver comportamentos que nos deem cada vez mais liberdade de escolha. Não acredito que a solução seja criar medo; é necessário desenvolver REPERTÓRIO.


Estamos vivendo um momento em que movimentar dinheiro se tornou extremamente fácil. Isso é maravilhoso. Mas facilidade exige responsabilidade. Um clique pode pagar uma conta, ajudar alguém, investir, comprar uma passagem, realizar um sonho. E um clique também pode abrir um rombo no nosso reservatório financeiro. Não temos como eliminar todos os riscos, mas podemos preparar melhor as pessoas.


Quanto melhor aprendermos a cuidar do fluxo de dinheiro, maiores serão as possibilidades de usá-lo para atender necessidades, concretizar desejos, cuidar de pessoas, apoiar projetos, investir, compartilhar, construir segurança e realizar sonhos. Até a próxima!




Carolina Simões Lopes Ligocki

Autora e Fundadora da Oficina das Finanças

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